20 de Julho de 2010

Revirando a papelada....

Deu-me para arrumações. Ou melhor, precisava de achar um papelucho no armário onde a empregada atirou com tudo o que eram coisas de papel. Recibos, contas, declarações, revistas, antigos cadernos escolares, folhas de rascunho estão todos misturados em pilhas com um ar aceitável, mas com uma lógica que transcende a teoria do caos.

A minha missão é divina. Tal como o meu famoso predecessor, devo criar ordem a partir do caos, reunir as ovelhas tresmalhadas e libertar para o mundo os seres que ignoraram as regras da casa. Mas, ao contrário do meu antecessor, ninguém registará o meu feito em crónicas que serão compiladas em livros sagrados, eventualmente usados como argumento para justificar as mais díspares barbáries. Enfim. É a vida.

A minha atenção prende-se num caderno antigo. Matrizes, equações matemáticas, regras de inglês e códigos de Fortran sucedem-se, pontualmente intercalados com registos de jogadas de espadinha, notas dos colegas do lado, rabiscos conceptuais ou mensagens da irmã que apanhou o caderno sem vigilância.

Noutra pilha, contos e emails trocados numa altura em que a internet só tinha imagens ASCII, estava limitada a um nicho académico e 14 kbits era uma velocidade estonteante. No tempo em que os dias eram longos, e trocar uma aula chata por um passeio a pé do Campo Grande até ao sumo de morango no Bairro Alto eram uma opção lógica. Os exames eram tão longe...

Seco uma lágrima teimosa. Não é a altura de ir abaixo. O tempo não volta atrás, e a carreira que escolhi abandonar está longe.

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